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Fernando Lopes-Graça – 100º aniversário

14 Novembro, 2006

A 17 de Dezembro o compositor, musicólogo e cidadão activo Fernando Lopes-Graça completava cem anos de vida.
A Câmara Municipal (de Setúbal), em parceria com a Associação de Municípios da Região de Setúbal, elaborou um programa comemorativo que se desenvolve entre Setembro e Maio.
Concertos, exposições, conferências são algumas das actividades agendadas para recordar uma das personalidades culturais portuguesas mais marcantes do século XX.

Fernando Lopes-Graça nasceu a 17 de Dezembro de 1906, em Tomar. Estudou em Coimbra, no Conservatório Nacional.
As “Variações Sobre um Tema Popular Português”, para Piano são a sua primeira obra, datada de 1929.
Presencista desde a primeira hora colabora na revista até que em 1936 parte para Paris onde frequenta na Sorbonne a cadeira de Musicologia. Regressado a Portugal, em 1939, inicia um trabalho musical assente sobre elementos harmónicos, melódicos e rítmicos do folclore português.
A sua intensa actividade na esfera da música não se circunscreve à composição. Lopes Graça notabiliza-se como conferencista, publicista, divulgador e opositor ao regime fascista.
Recebe, em 1940, o 1ºConcerto para Piano e Orquestra, prémio que volta a conquistar em 1942, 1944 e 1952. Em 1942 funda uma organização de concertos de música moderna intitulada “Sonata”, criando em 1951 a revista “Gazeta Musical”.
A linha folclorista reafirma-se e aprofunda-se em obras como a “Suite Rústica” (para orquestra, sobre melodias tradicionais portuguesas), “Os cinco Velhos Romances Portugueses”, as “Nove Canções Populares Portuguesas” (para voz e orquestra), os “Natais Portugueses” e “Melodias Rústicas Portuguesas” (para piano), além de numerosos ciclos de harmonizações de canções populares, para voz e piano, e para coro a capella.
Faleceu em 1995.

Download do tema “O Milho da Nossa Terra” da autoria de Fernando Lopes-Graça

Fontes: Câmara Municipal de Setúbal, Centro de Investigação para Tecnologias Interactivas, Instituto Camões.

Porquê o pontapé em Carlos Sousa?

14 Novembro, 2006

O processo de saída de Carlos Sousa (ou “de Sousa” como agora se diz num claro desvio burguês) é extraordinário. Desde as primeiras notícias do fim-de-semana que a morte era absolutamente anunciada. Não sabíamos como iria acontecer nem quais seriam os argumentos utilizados. Mas era certo e sabido que o autarca ia aceitar a directiva da concelhia e as ordens da Soeiro com sentido de militância. Foi um espectáculo triste de assistir.
A questão de saber se os mandatos pertencem aos eleitos ou aos partidos é eterna em praticamente todos os sistemas políticos, com a óbvia excepção dos maioritários de primeira ou segunda volta. É tão verdadeiro dizer que os lugares pertencem ao partido como ao autarca. Com facilidade se encontram argumentos para um ou outro lado da discussão. O caso dos presidentes de Câmara é, claramente, um dos mais bicudos. O número de pessoas que decidem o voto por causa do candidato que encabeça a lista é enorme. No caso de Setúbal isso é óbvio, embora não possa ser medido.
O PCP (ou a CDU, o que vai dar ao mesmo neste caso) sabe perfeitamente porque é que foi buscar Carlos Sousa à Câmara de Palmela. Não foi apenas pelo seu percurso exemplar, que podia figurar em qualquer manual do bom militante: Lisnave, Câmara de Almada, vereador em Palmela, presidente do município resistindo ao avanço do PS na margem Sul do Tejo e, finalmente, a capital do distrito. O PCP foi buscar Carlos Sousa porque ele tinha uma imagem à prova de bala em Palmela. Carlos Sousa era o “comunista ‘motard’” que ganharia a Câmara enquanto quisesse, que via eleitores de todos os partidos votarem nele sucessivamente. Era normal ouvir-se em outros concelhos do distrito elogios ao “autarca modelo” de Palmela.
Foi por isto tudo que o PCP foi buscar Carlos Sousa. Ele era o homem que ganharia Setúbal nas calmas, recuperando uma câmara perdida para o PS na década de 80 e que pouca gente acreditava poder voltar à esfera da CDU. A aposta foi ganha, Carlos Sousa esmagou o PS e arrastou eleitores de todos os partidos. A sua imagem, limpa, moderna e eficaz, não podia ser mais contrastante com a de Mata Cáceres, o furacão socialista que virou Setúbal do avesso com uma soberba que acabou por matá-lo.
É claro que o primeiro mandato de Carlos Sousa começou a mudar a sua imagem, lenta mas inexoravelmente. O caos financeiro não desapareceu, os ‘boys’ da CDU vieram em força para Setúbal (tal como os do PS tinham vindo antes e os de outro partido qualquer virão um dia), as movimentações dos grandes construtores existiram como em qualquer grande cidade e os resultados da reeleição foram menos brilhantes. O PCP passou a ter que negociar muita coisa com o PSD e o PS e tudo ficou mais difícil.
Carlos Sousa teve que funcionar mais em “rédea solta” e a concelhia começou a não gostar. O Comité Central percebeu que podia deixar de controlar a Câmara e sabe bem que “perder” Setúbal não é o mesmo que perder o Crato ou Aljustrel.
A partir daqui tudo foi simples e o PCP sabia que Carlos Sousa ia acatar as ordens, como toda a vida acatou. E um bom militante sabe acatar a ordem que o põe (a si próprio) fora de circulação. O processo de divulgação dos relatórios do IGAT é patético e tem clara mão política, favorecendo a oposição e, acima de tudo, o PCP que, assim, descobriu argumentos fantásticos para a defenestração de Carlos Sousa.
Num momento de assombro filosófico, Jerónimo de Sousa resolveu dizer que “às vezes os melhores homens não são os homens melhores para uma tarefa de grande exigência”. Às vezes as melhores frases não são as frases melhores. Às vezes vale a pena estar calado porque toda gente percebeu o que aconteceu.

Ricardo Costa