Arquivos para a Categoria ‘Política Nacional’

Modelo Energético Português

18 Novembro, 2006
 
Nuclear – O debate sobre o novo modelo energético em Portugal 
Autor: Jorge Nascimento Rodrigues,
Virgílio Azevedo
Páginas: 280
ISBN-10: 989-615-034-6
ISBN-13: 9789896150341
1ª Edição: Nov/2006
Colecção: Desafios

O tema da energia nuclear está hoje politizado e globalizado.
Deixou de ser apenas um tema de investidores e governantes nuclearistas versus ecologistas que se confrontam nas ruas, nos referendos ou nos debates públicos em cada país. Já não é somente uma questão de riscos humanos em caso de acidente operacional ou com os resíduos versus vantagens económicas e de independência estratégica.
A politização extrema advém, hoje, da vontade de alguns países em entrar no clube das armas atómicas pela porta principal ou pelas traseiras e no já vasto grupo dos países que utilizam a energia nuclear para geração de electricidade. Em certos casos mais “quentes” é difícil a separação clara dos fins pacíficos em relação aos objectivos militares ligados a ambições de potência regional.
A politização advém, também, do novo contexto geopolítico e do seu impacto nas commodities energéticas em que se baseia o actual modelo de desenvolvimento económico, saído da 2ª Revolução Industrial, sentado em cima de dois combustíveis fósseis. O disparo dos preços do petróleo, a chantagem política em torno dos poços de crude e das jazidas de gás natural, o domínio dos oleodutos e gasodutos, bem como das vias logísticas fundamentais do trânsito destas mercadorias, coloca problemas geopolíticos graves aos países que dependem estrategicamente da sua importação.
A par da turbulência nos mercados spot e de futuros destas commodities, a pressão das alterações nos equilíbrios do Planeta e das metas associadas a esses desafios tornam a ruptura com o modelo energético do século XX uma questão prioritária, segundo alguns de vida ou de morte.
Daí a globalização rápida do tema, com um renascimento do debate sobre a opção nuclear nas opiniões públicas e nos governantes. Vários investidores e lóbis industriais viram, nestes sinais de viragem, uma janela de oportunidade para este negócio energético.
Contudo, esta opção não está sozinha em cima da mesa; outros protagonistas estão na corrida para ocupar o espaço em declínio na oferta do petróleo e do gás natural, que muitos analistas alegam que irá ocorrer neste século.
Alguns já apelidaram este período de «a grande corrida do século XXI». Uma revolução energética como já não ocorria desde o princípio do século passado. As gerações que a vão viver têm, também, uma oportunidade única de deixar a sua impressão digital no futuro do Planeta.
Jorge Nascimento Rodrigues e Virgílio Azevedo pretendem deixar nas mãos do leitor uma reflexão independente.

in Centro Atlântico

Porquê o pontapé em Carlos Sousa?

14 Novembro, 2006

O processo de saída de Carlos Sousa (ou “de Sousa” como agora se diz num claro desvio burguês) é extraordinário. Desde as primeiras notícias do fim-de-semana que a morte era absolutamente anunciada. Não sabíamos como iria acontecer nem quais seriam os argumentos utilizados. Mas era certo e sabido que o autarca ia aceitar a directiva da concelhia e as ordens da Soeiro com sentido de militância. Foi um espectáculo triste de assistir.
A questão de saber se os mandatos pertencem aos eleitos ou aos partidos é eterna em praticamente todos os sistemas políticos, com a óbvia excepção dos maioritários de primeira ou segunda volta. É tão verdadeiro dizer que os lugares pertencem ao partido como ao autarca. Com facilidade se encontram argumentos para um ou outro lado da discussão. O caso dos presidentes de Câmara é, claramente, um dos mais bicudos. O número de pessoas que decidem o voto por causa do candidato que encabeça a lista é enorme. No caso de Setúbal isso é óbvio, embora não possa ser medido.
O PCP (ou a CDU, o que vai dar ao mesmo neste caso) sabe perfeitamente porque é que foi buscar Carlos Sousa à Câmara de Palmela. Não foi apenas pelo seu percurso exemplar, que podia figurar em qualquer manual do bom militante: Lisnave, Câmara de Almada, vereador em Palmela, presidente do município resistindo ao avanço do PS na margem Sul do Tejo e, finalmente, a capital do distrito. O PCP foi buscar Carlos Sousa porque ele tinha uma imagem à prova de bala em Palmela. Carlos Sousa era o “comunista ‘motard’” que ganharia a Câmara enquanto quisesse, que via eleitores de todos os partidos votarem nele sucessivamente. Era normal ouvir-se em outros concelhos do distrito elogios ao “autarca modelo” de Palmela.
Foi por isto tudo que o PCP foi buscar Carlos Sousa. Ele era o homem que ganharia Setúbal nas calmas, recuperando uma câmara perdida para o PS na década de 80 e que pouca gente acreditava poder voltar à esfera da CDU. A aposta foi ganha, Carlos Sousa esmagou o PS e arrastou eleitores de todos os partidos. A sua imagem, limpa, moderna e eficaz, não podia ser mais contrastante com a de Mata Cáceres, o furacão socialista que virou Setúbal do avesso com uma soberba que acabou por matá-lo.
É claro que o primeiro mandato de Carlos Sousa começou a mudar a sua imagem, lenta mas inexoravelmente. O caos financeiro não desapareceu, os ‘boys’ da CDU vieram em força para Setúbal (tal como os do PS tinham vindo antes e os de outro partido qualquer virão um dia), as movimentações dos grandes construtores existiram como em qualquer grande cidade e os resultados da reeleição foram menos brilhantes. O PCP passou a ter que negociar muita coisa com o PSD e o PS e tudo ficou mais difícil.
Carlos Sousa teve que funcionar mais em “rédea solta” e a concelhia começou a não gostar. O Comité Central percebeu que podia deixar de controlar a Câmara e sabe bem que “perder” Setúbal não é o mesmo que perder o Crato ou Aljustrel.
A partir daqui tudo foi simples e o PCP sabia que Carlos Sousa ia acatar as ordens, como toda a vida acatou. E um bom militante sabe acatar a ordem que o põe (a si próprio) fora de circulação. O processo de divulgação dos relatórios do IGAT é patético e tem clara mão política, favorecendo a oposição e, acima de tudo, o PCP que, assim, descobriu argumentos fantásticos para a defenestração de Carlos Sousa.
Num momento de assombro filosófico, Jerónimo de Sousa resolveu dizer que “às vezes os melhores homens não são os homens melhores para uma tarefa de grande exigência”. Às vezes as melhores frases não são as frases melhores. Às vezes vale a pena estar calado porque toda gente percebeu o que aconteceu.

Ricardo Costa